
Gosto muito de ler. Engraçado, por que não é um costume da minha família e eu não fui muito incentivado a isso dentro de casa (pelo contrário, só depois de muito choro e escândalo do tipo eu quero brócolis que eu conseguia ganhar um livro que não fosse didático).
Vou destacar um livro que está entre as quatro dicas da coluna "Biblioteca" da Revista Camarim. Assim, como indicado lá, é um livro um pouco "pesado", recomendo até que seja lido apenas por maiores de 18 anos. rs
'O Diário do Farol', escrito por João Ubaldo Ribeiro, conta a história de um ex-padre que mora isolado em uma ilha. Lá resolve escrever sua autobiografia e sem revelar seu nome, o anti-herói conta orgulhoso a sucessão de crimes cometidos.
A narrativa do livro é bem interessante. O personagem conversa com o leitor com uma intimidade insultuosa, provocando o leitor. A ficção é uma coleção de maldades e mostra o quão baixo pode chegar o ser humano. A história do ex-padre que é guiado pela assombração de sua mãe à vingança, lembra um pouco textos de Shakespeare. Mas a originalidade do autor permite que o texto vá além.
Falando em texto, vale destacar os ótimos trechos com que somos brindados no decorrer da leitura. Apesar de, na maioria das vezes, a história ser narrada, os momentos em que diálogos ou monólogos acontecem são sensacionais.
Destaco uma parte que gosto muito e inclusive interpretei para avaliação em um curso de teatro:
"Tu, Tu que me espias temeroso agora
Vais ouvir o que nunca ouvir quiseste
E nunca entenderás em tua alma imunda,
Mas ouvirás. Não há como lutar
Contra a força do ódio que me deste,
Legado único que me deixaste
Enquanto nosso mundo emporcalhavas.
Tu vais ouvir calado, sem falar
E teu poder de nada servirá
Porque agora é a hora da verdade.
Não podes mais xingar nem espancar.
Não poderás bater em quem desejas
Teu repelente ser inconvivível .
Mataste minha mãe, me deste irmãos,
Irmãos bastardos que somente agora
Declaro o que antes só tu pressentias,
Agora tens certeza. Eu os matei
Matei meus dois irmãos. E daqui a pouco
Te digo que te vou matar. Não basta
Matar-te é pouco para o que fizeste,
Se este destino não te alcançasse
E não fizesse, como agora faz,
Tremer como um dos bichos que capavas
Com o prazer espelhado no teu rosto.
Nada que eu faça apagaria a dor
O mimo que tu sempre me negaste.
Nem pagará o anseio que tem o filho
De ver no pai o seu contentamento.
Nem pagará as bofetadas que me deste,
A cópia de castigos que me deste
A dor maior de não ter pai. Vai, pois,
Filho da puta, à puta que pariu.
Sua descendência, para o bem da Terra,
Se extingue aqui. Jamais propagarei
O sêmen que aviltaste. E mais ainda,
Eu te anuncio a Morte que virá,
Pois vou matá-lo. Isso mesmo que ouviste:
Eu vou matá-lo porque me mataste
Por tantas vezes que contar não posso.
Mataste minha mãe, e meus irmãos
Matei-os eu por obra de Justiça
A que se busca e que jamais se espera.
E olho pra ti quase com pena,
A pena que se sente dos carrascos
Que, profissão fazendo do matar,
São eles próprios os crucificados.
Acho que já te perdoei, pai escroto,
Pai burro, pai ruim; mas sempre pai.
Tu que gozaste, quando me fizeste,
Tu que gozaste quando me batias.
Agora vou matar-te, meu paizinho,
E, se alguma outra encarnação houver,
Espero que me poupem de encontrar-te,
Vai pra puta que pariu, filho-da-puta,
Excremento de Satã, bosta do mundo,
Que agora vou matar com um travesseiro
Abafando o teu rosto renegado,
Não sem antes fruir um pouco mais
Este momento em que me alegro tanto
Ao ver-te tão transido de pavor
Diante de teu anjo vingador
Do qual eu sou apenas instrumento.
Tenta rolar ou gritar por socorro.
Não podes, não é mesmo? Pois eu, sim,
Posso e escolho a hora de matar-te
E finalmente me purificar.
Pois será amena a morte para ti:
Mereces algo muito mais cruel
Que esta almofada com que te sufoco.
E eu viverei, afinal viverei:
A tua morte é o meu sopro de vida."
Trecho do livro 'O Diário do Farol', de João Ubaldo Ribeiro.
O diário do farol
Autor: João Ubaldo Ribeiro
302 páginas - R$25,00 (em média)
Editora Nova Fronteira
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