terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dois extremos do Dionisícas: de 'Taniko' ao 'O Banquete'


Na última sexta-feira, começaram as apresentações dos espetáculos do 'Projeto Dionisiacas em Viagem 2010'.

Assisti o primeiro e o último espetáculo, respectivamente, 'Taniko, O Rito do Mar' e 'O Banquete', e consegui ver os extremos criativos da Cia. Oficina Uzyna Uzona.


'Taniko'é uma verdadeira poesia nipônica brasileira

A peça atrasou uma hora, mas valeu a pena esperar. Coberto por uma plasticidade e fotografia apreciável, 'Taniko' deu o pontapé inicial e, diga-se de passagem, com o pé direito para o ciclo de espetáculos do Projeto Dionisiacas, no Rio de Janeiro.

Com trilha sonora ao vivo, feita pela Banda Tigre Dente de Sabre,o espetáculo ganha uma mistura de ritmos que envolve a platéia, trazendo para o ambiente um entrosamento entre as culturas brasileira e japonesa.


Uma gueixa abre o espetáculo, em uma bela cena, pintando no chão o nome da peça com uma tinta vermelha. A partir daí começa uma viagem do Japão até o Brasil em pleno palco ao som de músicas tradicionais japonesas e Bossa Nova.

Como já dizia no post anterior, 'Taniko' conta a história do menino Kogata (Ariclenes Barroso) que arrisca-se ao deixar a mãe (Luiza Lemmertz) doente no Japão e seguir para o Brasil, em uma viagem de barco, sabendo da lei que estabelece deixar no caminho quem for tomado de exaustão ou ficar doente. Kogata revela não suportar o cansaço da viagem e exige que os companheiros o apunhalem e lhe joguem morto no mar, pois não quer morrer só. Cumpre-se o rito, apesar do Mestre Waki (Marcelo Drummond) tentar impedir. Depois do feito, apaixonado pelo discípulo, Waki invoca o poder de Zeame (Zé Celso), o criador do Nô, que os ajuda a tirar Kogata dos braços do mar.

Mitos do folclore brasileiro e japonês são inseridos e visitados nessa grande viagem que passa por vários países até, de fato, chegar aqui.

Em cena, vale destacar a voz potente de Cellia Nascimento, que já chega empolgando o público, interpretando O Bunda Budo.


O Coro de Yamabuchis dão vida ao que pode-se considerar como cenário, uma vez, que eles próprios, com suas partituras corporais, criam as ambientações do espetáculo, desde a formação do Navio até o tsunami que inunda a platéia.

O espetáculo inteiro é uma grande poesia, que com leveza em meio a uma estrutura tão bem acabada e cheia de equipamentos como grandes telões, fios, câmeras e refletores, conseguiu transportar o público para diversos países, fazendo um bom uso da tecnologia, mas sem depender dela.

Ressalto apenas a execução em cena por parte do Coro. A maioria das ações do Coro de Yamabuchis era, ou deveria ser sincronizada, desde a voz até o movimento. Entretanto, era nítido em algumas partes da peça uma certa insegurança de alguns atores, que até olhavam para trás para saber qual era a próxima ação a ser feita.

Mas ainda assim, o espetáculo não perde o seu ritmo e proporciona a platéia uma característica obra de arte.


Já 'O Banquete' ...

Uma vez, na escola de teatro em que eu me formei, o professor disse "Quando alguém for assistir uma peça de Artaud, tem que estar preparado para assistir Artaud.". Pois bem, deviam ter me dito a mesma coisa sobre o Zé Celso, antes de eu ir assistir o espetáculo "O Banquete" nesta última segunda-feira.

Recriação do clássico diálogo de Platão sobre Eros, o Amor, o texto de Zé Celso é feito em forma de versos musicados. Agatão (Marcelo Drummond), grande ator grego, acaba de encenar as Bacantes no Teatro de Estádio e recebe seus convidados, entre eles os filósofos Sócrates (Zé Celso), Aristófanes (Rodolfo Dias Paes), Diotima
(Camila Mota), Erixímaco (interpretado pelo ator pernambucano Anthero Montenegro) e o poeta Fedro (Lucas Weglinski) e Alcebíades (Fred Steffen), entre outros, para um banquete regado de vinho em sua casa onde vão cantar o Amor, Eros. Nesse ambiente, incorporam personagens da mitologia grega: Orpheu, Eurídice e Zeus; além de Jesus e Iemanjá.


Foram distribuidos vinhos e frutas para o público afim de trazê-los também a cena. Na verdade, muitos da platéia nem precisaram de vinho e já se fizeram presentes, tirando a roupa enquanto um dos atores fazia os agradecimentos e apresentava seus patrocinadores.

Não vou ser hipócrita a ponto de dizer que no início não achei algumas coisas engraçadas. Mas depois de 30 minutos de espetáculo tudo começou a perder o propósito. A nudez começou a se tornar desnecessária e a vulgarização do amor e do sexo tomou conta do palco.

Não acho que valha a pena comentar mais porque não gostei do espetáculo e por isso sai antes de terminar. Não era a minha praia.

Fotos de Neander Heringer

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