Tudo influencia na escrita. Inclusive, literalmente falando. Quando eu estava na quarta série, com uns 10 anos de idade, uma professora passou um trabalho cuja finalidade era criar um jornal. Naquela época, ter computador era quase o mesmo que ter uma Ferrari hoje em dia, então meu jornal foi feito à mão. De tanto escrever letras de forma, minha caligrafia - que já não era grande coisa – se tornou uma mistura estranha destas com letras cursivas.
Para escrever uma história não é diferente. Sou ator e jornalista por
formação, ambas profissões que tem como princípio a observação, e como tal não
consigo parar de prestar atenção em tudo que acontece a minha volta. E isso é
fonte de inspiração.
Um trejeito de alguém, uma conversa sem compromisso, uma discussão no metrô apertado, um desabafo na fila de duas horas para pegar uma senha no Banco do Brasil, para esperar mais 40 minutos para ser atendido... enfim. Deu para perceber que também sou bem positivo, já que consigo ver o lado bom de certas coisas.
Mas além do cotidiano, outras histórias, bem como outros livros, filmes
e séries também servem de referência para a construção do que eu levo para meus
romances (sim, tenho mais um engavetado e que já, já, vai ser passado pra um
papel).
Livros
Sempre gostei de pensar sobre acontecimentos. Sou curioso e o “porquê” é sempre uma busca constante em qualquer conversa. Talvez eu devesse ter feito filosofia, mas acho que não é esse o perfil da minha curiosidade. Minha paixão está em mistérios. Suspenses. Jogos de adivinhação.
Livros como 'O Código Da Vinci' e 'Anjos e Demônios' (esse, muito
melhor que o primeiro) de Dan Brown eram devorados numa velocidade
impressionante. 'Os homens que não amavam as mulheres' de Stieg Larsson, apesar
da narrativa lenta, também alimentou minha fome de suspense, mas numa
velocidade mais tranquila.
Desde muito novo meus interesses caíam sobre temas que envolviam esse gênero. 'Descanse em paz, meu amor' de Pedro Bandeira - apesar de muito medo - me fez ficar completamente estatelado, aos 13 anos de idade, com seu final surpreendente. 'A marca de uma lágrima' (me julguem), do mesmo autor, foi lido em um dia. Eram 170 páginas. Comecei às 10h, terminei às 22h. Eram boas leituras.
Inevitavelmente, mesmo de maneira inconsciente, sei que essas histórias
permeiam a maneira como 'Cabaret Les Amants' foi escrito e os rumos que acabou
tomando.
Mas não é só de livros que se constrói uma boa história. Filmes e
séries tem influência direta na maneira como escrevi 'Cabaret Les Amants' e até
mesmo com a trama, propriamente dita. Vou dar exemplos bem claros.
Filmes e séries
Em 'Sobre Meninos e Lobos', o
mistério pode ser desvendado logo no início do filme por conta de uma pista tão
óbvia, mas tão óbvia... que não vou contar aqui para não dar spoiler. Em 'Cabaret Les Amants' fiz
algo parecido. Tentei colocar, já nas primeiras páginas, uma pista tão sutil
quanto a do longa. Fique atento!
Já o filme 'Anjos do Sol' foi primordial para o start da minha ideia. De alguma forma esta excelente e perturbadora
produção brasileira contribuiu muito para despertar o universo de 'Cabaret'.
Apesar de duas realidades diferentes -
no filme as meninas sabem que estão sendo prostituídas e no livro o
abuso pelos convidados é algo (de certa forma) desejado - as duas histórias tem
como pano de fundo a floresta, o isolamento. Em ambas, uma nova sociedade e
novas regras são instituídas. Recomendo. Vale a pena assistir!
Partindo do cinema para TV, as séries americanas são minha grande referência dramatúrgica. Fico impressionado com a capacidade narrativa dos "enlatados". Não desmerecendo as produções nacionais, mas os norte americanos conseguem
criar histórias muito boas.
Sei que serei muito julgado pela minha seguinte declaração, mas ninguém
é perfeito: o que é a costura narrativa de 'Once Upon a Time'? DEOS! De onde
sai tanta criatividade?! É conto de fadas? Tá. Os cenários em Chroma Key são
péssimos? São. Mas ignore tudo isso e perceba como eles constroem relações
entre dois tempos diferentes. É sempre surpreendente. E o melhor de tudo:
percebam como eles destroem infâncias com teorias convincentes (Ninguém mais
gosta de Peter Pan!). Mesmo sem muito reconhecimento pela crítica, merecem
atenção. E não à toa, quem lê 'Cabaret Les Amants' logo se dá conta de como
esse tipo de narrativa me inspira. Os flashbacks que "justificam" os
acontecimentos são prova disso.
Ainda sobre os "enlatados", outra série que inspirou o livro foi 'American Horror Story'. Apesar de eu achar que, nesse caso, a dramaturgia se
perde no final das temporadas, o clima da série é bem envolvente em relação ao
que se propõe. Em 'Cabaret' há momentos
que este horror é explorado. Tramas como da Noemia, de Teresa, o ritual dos
convidados e até mesmo o final do livro (que eu não considero ruim, ao contrário
do final das temporadas) tem um toque "Horror Story" de ser.
Ah... e se eu pudesse escolher um produtor musical para fazer a trilha
sonora do meu livro, seria o mesmo dessa série! Com certeza!
E por fim, mas não menos importante, vamos falar de 'Narcos'.
'Narcos' e o Realismo Mágico
A série acabou de estrear e é protagonizada pelo brasileiro Wagner
Moura e seu esponholzito que não me incomodou nem um pouco. Confesso que
sempre fico meio cansado com o tema tráfico, comunidade, violência urbana. Mas, depois que você assiste um episódio da série, não consegue
mais parar. Aliás, o Netflix tem dessas coisas. Acho que essa liberdade para
assistir a temporada inteira de uma produção acaba despertando na gente uma nova
maneira de ver tv. Enfim, sem teorias... voltando à 'Narcos'. A história é
ótima e conta com uma mistura entre ficção e realidade que é o grande trunfo da série. Mas uma coisa chama muita atenção: o realismo mágico.
O primeiro episódio já explora uma constatação: Realismo Mágico é definido como o que acontece quando uma situação realística, altamente detalhada, é invadida por algo estranho demais para acreditar. Existe um motivo para o
realismo mágico ter nascido na Colômbia.
No terceiro episódio, conclui: É um país onde os sonhos e a realidade
se confundem, onde em suas mentes as pessoas voam tão alto quanto Ícaro.
Isso despertou meu interesse na hora. "Em suas mentes as pessoas
voam tão alto quanto Ícaro".
Já tinha ouvido falar de Literatura Fantástica, mas Realismo Mágico?!
Tenho uma grande dificuldade em classificar o livro 'Cabaret Les
Amants': é um Romance de suspense? Terror? É um drama? Vai ver alguém acha
graça, é uma comédia? Sei lá. Na verdade, isso nem me preocupa. Mas eis minha
natureza de pensar demais sobre as coisas.
Comecei a achar que aí poderia estar uma classificação para minha
história. Fui pesquisar e, sim, existe uma possibilidade. Tudo em 'Cabaret' parece
surreal, mas no decorrer da narrativa você percebe que tudo é muito possível,
com exceção de alguns elementos bem pontuais. Mas é possível. Afinal, você
precisa se deixar enganar para entender a realidade em que as personagens
vivem e é aí que está a magia!







