terça-feira, 13 de setembro de 2011

O morto, as velhas e o bicho

Dona Graça logo arregalou os olhos.

- Morreu?! – indagou sem acreditar.

- Atropelado querida, já vai fazer sete dias – respondeu Dona Zefinha, sua amiga de longa data.

As duas não sabiam do falecimento repentino do jovem Marco Antônio Felicíssimo da Silva.

De idade avançada, Dona Graça estava quase chegando ao centenário e mantinha aberto um boteco há mais de sessenta anos. Dona Zefinha, freqüentadora assídua do bar, sempre ia fazer companhia a Dona Graça e todas as manhãs bebia sua sagrada dose de pinga.

-Me deixa mais viva! – afirma a senhora, em seus oitenta e oito anos de idade.

- Morto?! Mas então já vão fazer a missa de sétimo dia? – voltou Dona Graça ao assunto.

- Vão. A mãe, Dona Vera, até publicou o obituário do filho no jornal. Foi assim que fiquei sabendo. Vai ser na Candelária.

- Na Candelária?! – os olhos de Dona Graça brilharam.

- Na Candelária! – respondeu Zefinha, sílaba por sílaba.

- Gente metida. Mas na missa eu nem pretendia ir, queria mesmo é ter ido ao velório.

- Dar o último adeus, né Graça?! – questionou Zefinha com um ar de tristeza.

- Não, pra ver o número da lápide. Sempre que eu jogo no bicho é batata.


Por Rohan Baruck
Conto criado para a faculdade. A proposta era criar um conto a partir de um obituário dado em sala de aula contemplando os seguintes elementos: 1. Diálogos; 2. Foco Narrativo; 3. Coerência com as informações do obituário; 4. Desfecho que levou à sua morte.