sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Era uma vez… um livro



 

Sempre me encantei por boas histórias. Não importa onde estivessem. Livros, filmes, séries. O importante sempre foi prender minha atenção. Daí, quando escrevo meus textos, penso nisso. Foi assim nas cenas para o teatro, para redigir reportagens jornalísticas e, claro, para escrever meu livro.

A ideia de escrever um romance surgiu enquanto eu cursava Jornalismo e, em uma disciplina sobre artes, entrei em contato com o quadro de René Magritte, ‘Les Amants’.
// Se eu fosse um desenho animado, todo mundo poderia ver a lâmpada acendendo sobre a minha cabeça. É sério! //

Inebriado pelos mistérios que cercavam o quadro tive vontade de criar uma realidade para ele. Na época, estava começando a ter contato com a literatura de Stephen King , mais especificamente o livro “Under the Dome”, e comecei a me questionar sobre a construção de uma sociedade. Quais foram as circunstâncias que fizeram com que as comunidades em que vivemos se tornassem o que são hoje? Profundo né?! Pois é! Foi assim que construí todo o universo de ‘Cabaret Les Amants’.

Faz sentido? Não sei. Talvez.

Leia a sinopse: Isabel acordou e não sabe onde está. Menos ainda como chegou naquela casa. Era 1905, mas ela não se lembra da última data em sua memória, de nenhuma de suas irmãs e nem de Teresa, sua mãe. As histórias que dizem que ela ouviu desde criança – sobre deuses com corpo de homem e rostos cobertos por um pano, que viriam abençoar-lhes com a dádiva de gerar uma menina – ainda eram estranhas. Mas por que isso não faz mais sentido? Sentido. O sentido das coisas parece ser cada vez menor até que o vislumbre de um quadro denuncia o que pode ser um risco de vida para Isabel e cada moradora do casarão.

Intrigante?!



O passo a passo

Entre hiatos e passos de tartaruga, escrevi ‘Cabaret Les Amants’ em 12 meses. Todo trabalhado no mistério, tive uma preocupação muito grande com a narrativa. Desde o início eu queria criar algo intrigante como Lost, mas que não fosse um total fiasco em seu desfecho – como foi a série. Então, decidi que os segredos seriam revelados capítulo por capítulo.

Como era a minha primeira experiência escrevendo algo tão grande (o original tem 180 páginas), usei minhas experiências enquanto produtor de tv, pegando as técnicas para criação de roteiro audiovisual para conseguir me organizar.

– Como é isso, Rohan?! – você me pergunta (ou não).

– É simples! –  eu te respondo.

Vamos a receita!

Ingredientes:

– 1 Storyline
– 1  Sinopse/Resumo
– Alguns perfis de personagens
– 12 capítulos de argumentos

Modo de preparo:

Primeiro, escreva uma pitada da sua história através de um Storyline, ou seja, em um texto de 3 a 5 linhas você deve escrever qual é o conflito da sua trama, em que ele resulta e como termina. Em seguida, faça uma Sinopse/Resumo contendo informações mais especificas sobre os personagens da trama e as relações de espaço e tempo. Feito isso, aperte ‘Salvar’ no seu word para não perder o seu arquivo caso o computador desligue (Sim, isso me aconteceu. E não, não salvou uma cópia de segurança). Logo depois, comece a escrever o perfil de cada um dos personagens da história. Vale lembrar que nessa hora você deve descrever características físicas e psicológicas, além da trajetória de vida de cada um deles, desde antes de o livro começar até o fim da trama. Agora, falta pouco para terminarmos a preparação. Feito isso tudo, comece a preparar seus argumentos à gosto. No meu caso, dividi a história em capítulos para facilitar a digestão. É no argumento que você descreve, com detalhes, a sequência de acontecimentos da sua trama.

Está pronto o seu roteiro para a criação de um livro. É só começar a escrever e consultá-lo sempre que precisar relembrar da história como um todo.

Para aprovarem o gosto, enquanto eu escrevia os capítulos, selecionei amigos fiéis para degustarem os capítulos e darem suas críticas quanto ao andamento da trama. Isso funcionou bastante para saber se a obra estava no ponto.

Se quiser provar, clique aqui e leia as primeiras páginas de graça. Ah, o livro também está a venda em formato de e-book, e você encontra aqui.

*Guest Post feito para o blog QG da Bruna, postado em 22/09/2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Entre livros, filmes, séries e Cabaret Les Amants




Tudo influencia na escrita. Inclusive, literalmente falando. Quando eu estava na quarta série, com uns 10 anos de idade, uma professora passou um trabalho cuja finalidade era criar um jornal. Naquela época, ter computador era quase o mesmo que ter uma Ferrari hoje em dia, então meu jornal foi feito à mão. De tanto escrever letras de forma, minha caligrafia - que já não era grande coisa – se tornou uma mistura estranha destas com letras cursivas.

Para escrever uma história não é diferente. Sou ator e jornalista por formação, ambas profissões que tem como princípio a observação, e como tal não consigo parar de prestar atenção em tudo que acontece a minha volta. E isso é fonte de inspiração.

Um trejeito de alguém, uma conversa sem compromisso, uma discussão no metrô apertado, um desabafo na fila de duas horas para pegar uma senha no Banco do Brasil, para esperar mais 40 minutos para ser atendido... enfim. Deu para perceber que também sou bem positivo, já que consigo ver o lado bom de certas coisas.

Mas além do cotidiano, outras histórias, bem como outros livros, filmes e séries também servem de referência para a construção do que eu levo para meus romances (sim, tenho mais um engavetado e que já, já, vai ser passado pra um papel).

Livros

Sempre gostei de pensar sobre acontecimentos. Sou curioso e o “porquê” é sempre uma busca constante em qualquer conversa. Talvez eu devesse ter feito filosofia, mas acho que não é esse o perfil da minha curiosidade. Minha paixão está em mistérios. Suspenses. Jogos de adivinhação.

Livros como 'O Código Da Vinci' e 'Anjos e Demônios' (esse, muito melhor que o primeiro) de Dan Brown eram devorados numa velocidade impressionante. 'Os homens que não amavam as mulheres' de Stieg Larsson, apesar da narrativa lenta, também alimentou minha fome de suspense, mas numa velocidade mais tranquila.
Desde muito novo meus interesses caíam sobre temas que envolviam esse gênero. 'Descanse em paz, meu amor' de Pedro Bandeira - apesar de muito medo - me fez ficar completamente estatelado, aos 13 anos de idade, com seu final surpreendente. 'A marca de uma lágrima' (me julguem), do mesmo autor, foi lido em um dia. Eram 170 páginas. Comecei às 10h, terminei às 22h. Eram boas leituras.  

Inevitavelmente, mesmo de maneira inconsciente, sei que essas histórias permeiam a maneira como 'Cabaret Les Amants' foi escrito e os rumos que acabou tomando.

Mas não é só de livros que se constrói uma boa história. Filmes e séries tem influência direta na maneira como escrevi 'Cabaret Les Amants' e até mesmo com a trama, propriamente dita. Vou dar exemplos bem claros.

Filmes e séries

Em  'Sobre Meninos e Lobos', o mistério pode ser desvendado logo no início do filme por conta de uma pista tão óbvia, mas tão óbvia... que não vou contar aqui para não dar spoiler. Em 'Cabaret Les Amants' fiz algo parecido. Tentei colocar, já nas primeiras páginas, uma pista tão sutil quanto a do longa. Fique atento!



Já o filme 'Anjos do Sol' foi primordial para o start da minha ideia. De alguma forma esta excelente e perturbadora produção brasileira contribuiu muito para despertar o universo de 'Cabaret'. Apesar de duas realidades diferentes -  no filme as meninas sabem que estão sendo prostituídas e no livro o abuso pelos convidados é algo (de certa forma) desejado - as duas histórias tem como pano de fundo a floresta, o isolamento. Em ambas, uma nova sociedade e novas regras são instituídas. Recomendo. Vale a pena assistir!



Partindo do cinema para TV, as séries americanas são minha grande referência dramatúrgica. Fico impressionado com a capacidade narrativa dos "enlatados". Não desmerecendo as produções nacionais, mas os norte americanos conseguem criar histórias muito boas.

Sei que serei muito julgado pela minha seguinte declaração, mas ninguém é perfeito: o que é a costura narrativa de 'Once Upon a Time'? DEOS! De onde sai tanta criatividade?! É conto de fadas? Tá. Os cenários em Chroma Key são péssimos? São. Mas ignore tudo isso e perceba como eles constroem relações entre dois tempos diferentes. É sempre surpreendente. E o melhor de tudo: percebam como eles destroem infâncias com teorias convincentes (Ninguém mais gosta de Peter Pan!). Mesmo sem muito reconhecimento pela crítica, merecem atenção. E não à toa, quem lê 'Cabaret Les Amants' logo se dá conta de como esse tipo de narrativa me inspira. Os flashbacks que "justificam" os acontecimentos são prova disso.

  
Ainda sobre os "enlatados", outra série que inspirou o livro foi 'American Horror Story'. Apesar de eu achar que, nesse caso, a dramaturgia se perde no final das temporadas, o clima da série é bem envolvente em relação ao que se propõe. Em 'Cabaret'  há momentos que este horror é explorado. Tramas como da Noemia, de Teresa, o ritual dos convidados e até mesmo o final do livro (que eu não considero ruim, ao contrário do final das temporadas) tem um toque "Horror Story" de ser.

Ah... e se eu pudesse escolher um produtor musical para fazer a trilha sonora do meu livro, seria o mesmo dessa série! Com certeza!



E por fim, mas não menos importante, vamos falar de 'Narcos'.

'Narcos' e o Realismo Mágico



A série acabou de estrear e é protagonizada pelo brasileiro Wagner Moura e seu esponholzito que não me incomodou nem um pouco. Confesso que sempre fico meio cansado com o tema tráfico, comunidade, violência urbana. Mas, depois que você assiste um episódio da série, não consegue mais parar. Aliás, o Netflix tem dessas coisas. Acho que essa liberdade para assistir a temporada inteira de uma produção acaba despertando na gente uma nova maneira de ver tv. Enfim, sem teorias... voltando à 'Narcos'. A história é ótima e conta com uma mistura entre ficção e realidade que é o grande trunfo da série. Mas uma coisa chama muita atenção: o realismo mágico.

O primeiro episódio já explora uma constatação: Realismo Mágico é definido como o que acontece quando uma situação realística, altamente detalhada, é invadida por algo estranho demais para acreditar. Existe um motivo para o realismo mágico ter nascido na Colômbia.

No terceiro episódio, conclui: É um país onde os sonhos e a realidade se confundem, onde em suas mentes as pessoas voam tão alto quanto Ícaro.

Isso despertou meu interesse na hora. "Em suas mentes as pessoas voam tão alto quanto Ícaro".

Já tinha ouvido falar de Literatura Fantástica, mas Realismo Mágico?!

Tenho uma grande dificuldade em classificar o livro 'Cabaret Les Amants': é um Romance de suspense? Terror? É um drama? Vai ver alguém acha graça, é uma comédia? Sei lá. Na verdade, isso nem me preocupa. Mas eis minha natureza de pensar demais sobre as coisas.

Comecei a achar que aí poderia estar uma classificação para minha história. Fui pesquisar e, sim, existe uma possibilidade. Tudo em 'Cabaret' parece surreal, mas no decorrer da narrativa você percebe que tudo é muito possível, com exceção de alguns elementos bem pontuais. Mas é possível. Afinal, você precisa se deixar enganar para entender a realidade em que as personagens vivem e é aí que está a magia!

Quer saber mais sobre Realismo Mágico? Tem link aqui, aqui, aqui e aqui!

domingo, 30 de agosto de 2015

NEM TUDO QUE PARECE, É

"Não, eles não são homens. Por trás daqueles panos, não existe rosto. Eles são deuses, eles têm o poder de trazer o bem ou o mal para dentro de vocês. Mas não são eles que escolhem o que plantam. Se estiverem sujas, com pensamentos impuros e não se entregarem ao que eles querem, irão criar um monstro dentro de vocês."

- Teresa

Foto de Quentin Arnaud, que tem um ensaio inteiro com esse trabalho - sensacional - de sombra. Veja aqui!
















No livro 'Cabaret Les Amants', certamente, o que mais intriga é a existência dos Convidados. Tidos como deuses, são figuras misteriosas com um poder sobrenatural, tanto que são descritos pela matriarca Teresa como os responsáveis por manter o casarão e seus habitantes em segurança, longe de qualquer mal. De aparência circunstancialmente macabra, eles tem corpo de homem e a cabeça coberta por um pano, escondendo o que deveria ser a sua face.

Mas de onde surgiram esses deuses? Por que eles tem o rosto coberto?

Bom, não espere que eu revele o segredo assim de mão beijada. É claro que para descobrir você precisará ler o livro. Mas não me custa nada tentar ajudá-lo a entender melhor as inspirações para criação deste personagem, quem sabe daí não sai alguma resposta? 


O quadro

Les Amants. René Magritte, 1928.
René Magritte foi um dos principais artistas do movimento surrealista e criou, entre suas principais obras, o quadro 'Les Amants', que não só serviu como inspiração para a criação dos Convidados, como também decora o casarão de Teresa e suas meninas.

No Romance eles são tidos como deuses, mas na vida real, as explicações sobre a motivação de Magritte para pintar um casal de rosto coberto varia entre duas possibilidades: um personagem da literatura francesa ou a morte da própria mãe.

A primeira, trata-se do personagem francês fictício de histórias do gênero policial, Fantômas, um ladrão sem qualquer escrúpulo, sociopata, que matava suas vítimas com requintes de sadismo e tinha o rosto coberto para não revelar sua verdadeira identidade. Esse personagem surgiu em 1911, aparecendo em mais de 32 livros escritos por Marcel Allain e Pierre Souvestre. Ao longo dos anos, Fantômas  foi adaptado para TV, Cinema e quadrinhos.

Abaixo uma versão bem esquisita do que se tornou o Fantômas no cinema, em 1966, no filme 'Fantômas contre Scotland Yard':


Aqui, uma versão mais sensata do personagem, na ilustração para o Gibi do Fantôma:


Já a segunda possibilidade de inspiração do pintor, para o quadro 'Les Amants', é um pouco mais triste e não se trata de uma ficção. Aproximadamente aos 14 anos de idade, Magritte viu o corpo de sua mãe ser retirado de dentro do Rio Sambre, no Norte da França, enrolado pelo vestido branco que ela usava. A mulher havia cometido suicídio, afogando-se no rio. 
  
No Romance


Em 'Cabaret Les Amants', os Convidados tem uma relação muito forte com a história de Teresa. Posso, inclusive, dizer que o surgimento deles está diretamente ligado ao que a personagem de aparência centenária se tornou com o tempo.